terça-feira, 16 de agosto de 2016

Eficiência e Sustentabilidade nas edificações da Rio 2016

Por Tiago Reis, para o Procel Info, publicado em 15/08/2016

Rio de Janeiro - Vila dos Atletas e arenas esportivas utilizam recursos que valorizam a otimização da utilização dos recursos naturais

Rio de Janeiro – A Olimpíada já começou e no momento em que você lê essa reportagem, atletas de várias partes do mundo estão competindo em busca de vitórias, novos recordes e da tão sonhada medalha olímpica. Mas antes dos mais de 10 mil atletas chegarem ao Rio de Janeiro, uma delegação gigante entrou em campo com um só objetivo: transformar a Rio 2016 nos Jogos mais sustentáveis da história. E para que essa meta pudesse ser alcançada, a construção e operação das instalações esportivas tiveram uma participação importante. Desde a concepção dos projetos, passando pela escolha dos locais, tamanho das arenas e construção e operação desses locais, sempre foram priorizadas soluções para minimizar o impacto ambiental dessas instalações, antes, durante e depois da realização dos Jogos.

A primeira versão do Plano de Gestão de Sustentabilidade dos Jogos Rio 2016, lançado em março de 2013, determinava que todas as instalações, provisórias, temporárias ou permanentes, atendessem a todos os requisitos de uma construção sustentável. A Gerente Geral de Sustentabilidade, Acessibilidade e Legado dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, Tânia Braga, explica que essas diretrizes foram pensadas desde 2008 quando foi apresentada a candidatura do Rio de Janeiro para ser cidade da Olimpíada de 2016. Com a evolução e desenvolvimento de novos processos tecnológicos o Comitê sempre buscou adaptar à nova realidade para entregar o evento o mais sustentável possível.

Ações de eficiência energética reduziram em 10% o consumo de energia na Vila dos Atletas

Para isso, todas as novas construções, foram obrigadas a seguir as orientações do Procel Edifica e do LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) para que, quando concluídas, os administradores que manifestassem interesse, pudessem obter as certificações ambientais para essas edificações.
Projeto do Parque Olímpico dos Jogos Rio 2016 na Barra da Tijuca (fonte: Empresa Olímpica Municipal)


“No caso das instalações esportivas, buscamos sempre adequá-los para que o seu uso pudesse ser feito de forma mais racional. Projetos compactos, instalações compartilhadas, otimização e reaproveitamento de insumos, reduzem o uso de material, água e energia, sem afetar a qualidade e a funcionalidade desses locais. Além disso, ajuda o meio ambiente, já que dessa forma conseguimos mitigar uma grande quantidade de gases de efeito estufa. É a fórmula do mais com menos. Menos espaço é igual a menos material, menos energia e menos emissões. E com isso, todos ganham”, afirma Tânia.

Nos Jogos do Rio estão sendo utilizadas 32 instalações esportivas, sendo 17 já existentes, cinco temporárias e outras dez novas permanentes. No caso das edificações permanentes que foram construídas para a competição a Vila dos Atletas (foto), as Arenas Cariocas 1, 2 e 3, a Quadra Central de Tênis e o Velódromo, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, e a Arena da Juventude, o Estádio de Canoagem e o circuito radial de BMX e mountain Bike, no Complexo Esportivo de Deodoro. A gerente completa que todas edificações construídas de forma permanente foram pensadas para ter um uso eficiente e adequado após os Jogos para que fosse evitado a ociosidade e a transformação em elefantes brancos.

Vila dos Atletas: referência em sustentabilidade

Bairro da Ilha Pura é considerado o primeiro
sustentável da América Latina
Uma das mais desafiadoras construções para os Jogos Olímpicos Rio 2016 foi a da Vila dos Atletas. Batizado com nome de Ilha Pura, bairro planejado na Região da Barra da Tijuca, que depois da Olimpíada terá os apartamentos vendidos e funcionará dividido em três condomínios, foi concebido para gerar conforto e qualidade de vida para os seus hospedes e moradores, observando questões como o uso racional dos recursos naturais e baixo impacto ambiental. 

Com área total de mais de 800 mil metros quadrados, maior que o tradicional bairro do Leme, na zona sul carioca, o local conta com 31 prédios de 17 andares e uma série de requisitos ecológicos, o que fez com que o Ilha Pura/Vila dos Atletas fosse reconhecido como o primeiro bairro totalmente sustentável da América Latina. Todos os 3.604 apartamentos que são ocupados por atletas olímpicos e, em setembro, terão os paraolímpicos como hóspedes, possuem técnicas que proporcionam a economia de água e luz, além de sistemas de iluminação e climatização eficientes.

“A filosofia de fazer um ambiente totalmente sustentável foi nossa única opção. Utilizamos as melhores técnicas para que o condomínio Ilha Pura [Vila dos Atletas] torne-se uma referência para o país e mostrar que investir em construções sustentáveis é viável tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental”, explica Maurício Cruz Lopes, diretor Geral do Ilha Pura.

Na fase de projeto, uma das primeiras ações sustentáveis foi a escolha do posicionamento de cada torre. Por meio de um software, foi possível definir o melhor local para construir cada prédio, o que possibilitou criar um bioclima favorável para a redução da temperatura no interior dos apartamentos, o que diminui a necessidade do uso do ar condicionado nos dias mais quentes.

Durante a construção foram utilizadas diversas técnicas para reduzir o consumo de água e energia. No uso da água, foi construída uma estação para tratar a água cinza, que é proveniente dos chuveiros e torneiras do vestiário dos operários, que após o procedimento foi reutilizada nas descargas, limpeza dos equipamentos e central de concreto. Com o condomínio concluído, essa estação está sendo utilizada nas bacias sanitárias, irrigação dos jardins e abastecimento dos lagos, o que reduziu em 40% a utilização de água no local. Ainda durante a fase de construção, também foi usado um sistema online para monitorar o uso de água e energia em 15 centros de atividade do canteiro de obras, o que possibilitou uma gestão mais eficiente desses recursos.

Em relação a eficiência energética, foi priorizado a utilização de materiais que minimizassem a sensação de calor e valorizassem a iluminação natural. Para isso, foram usados revestimentos com tons mais claros, que refletem a luz do sol e reduzem o aquecimento, e vidros semi-reflexivos, que funcionam como isolantes térmicos, permitindo a entrada da luz natural sem esquentar o ambiente.

Arquitetura nômade e compacta é uma das principais inovações apresentadas na Rio 2016

Maurício conta que para reduzir o consumo de energia, os elevadores possuem sistemas regenerativos que gastam 70% menos energia em comparação com equipamentos convencionais. Além disso, os apartamentos contam com aquecedores solar de água, toda a iluminação das áreas comuns do condomínio é de LED e conta com sistemas automatizados de presença. O condomínio também conta com telhado verde na cobertura dos prédios, fazendo com que todos os apartamentos tenham temperaturas semelhantes, reduzindo a utilização do ar-condicionado.

“Todas as ações de eficiência energética reduziram em cerca de 10% o consumo de energia da Vila dos Atletas. Pode parecer pouco, mas levando em consideração a área ocupada e a utilização de todo o complexo, é uma economia significativa”, ressalta o diretor geral do llha Pura.

Com essas ações a Vila dos Atletas/Ilha Pura já conquistou quatro certificações ambientais, os selos LEED for Neighborhood Development (Leed-ND); LEED para Desenvolvimento de Bairros; Aqua-HQE Bairros e Loteamentos; Aqua‑HQE Habitacional de Alta Qualidade Ambiental, e o Selo Casa Azul. Mesmo com a elevação do custo total da obra, devido a inclusão das tecnologias que tornaram o espaço 100% sustentável, Maurício Cruz destaca que o grande legado que vai ficar para a cidade, além da mudança urbanística daquela parte da Barra da Tijuca, é a consciência ambiental que está presente em cada espaço do empreendimento.

“Mudamos completamente aquela região. Além das práticas de uso racional de recursos naturais na construção, o conceito se expande no legado sustentável que fará parte do dia a dia do morador”, completa.

Arenas nômades

As arenas esportivas construídas para os Jogos também foram pensadas para valorizar a eficiência energética e a sustentabilidade. As Arenas Carioca 1, 2 e 3, no Parque Olímpico da Barra, foram erguidas com foco nas principais tecnologias e inovações para tornar o espaço mais otimizado e racional na utilização dos recursos naturais. Construídas de forma geminada, ou seja, uma ligada a outra, mas, operando de forma independente, os três ginásios foram erguidos para aproveitar da melhor forma possível a iluminação e ventilação natural para reduzir a demanda por energia. Para isso, a cobertura e a fachada possuem isolamento térmico com o objetivo de reduzir a incidência solar e manter a temperatura confortável, além de possuir aberturas nas laterais para permitir a entrada dos ventos. Já em relação à iluminação natural foi utilizado o sistema zenital, que por meio de tubos difusores, permite a entrada dos raios solares sem interferir na temperatura interna do ambiente. Esse sistema é capaz de produzir 20.500 lumens, o que equivale a 17 lâmpadas incandescentes de 100 watts.Com essa tecnologia evita-se o uso de aproximadamente quatro mil lâmpadas, o que segundo estimativas do Comitê Rio 2016 pode proporcionar uma economia de mais de R$ 40 mil por mês na conta de energia das três arenas.


Ainda no Parque Olímpico da Barra, o Estádio Aquático, que está sendo utilizado nas competições de natação e polo aquático na Olimpíada e depois na Paralimpíada, e a Arena do Futuro, palco dos confrontos do handebol e do golbol nos Jogos Paralímpicos, são dois equipamentos que contam com soluções inovadoras para atender aos requisitos sustentáveis. Para evitar que torne-se elefantes brancos após a Rio 2016, as duas estruturas adotam o conceito da arquitetura nômade. Após o encerramento das Paralimpiadas, os dois estádios serão desmontados e transformadas em quatro escolas e dois centros esportivos. Essa é a mesma técnica que será utilizada no Centro Internacional de Mídia (MPC) e no Centro Internacional de Transmissão (IBC), que terão suas estruturas desmontadas e reutilizadas nos Jogos de Inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul, em 2018, e na Olimpíada de Verão de 2020, em Tóquio.


Legado do Parque Olímpico Rio 2016 - Fonte: Jornal “O Globo” – Matéria: “Rio 2016 terá 
projeto inglês no Autódromo”, por Rafaela Santos
Para aumentar a eficiência energética, o Estádio Aquático conta com cerca de 15 mil pequenos furos instalados em sua estrutura para permitir a entrada da ventilação natural. Segundo a Empresa Olímpica Municipal (EOM), órgão da Prefeitura do Rio responsável pela supervisão da obra, essa medida proporciona uma economia significativa de energia, já que serão evitados a utilização de cerca de dez mil aparelhos de ar condicionado convencionais para refrigerar o local. Na arena do handebol, além dos recursos da iluminação e ventilação natural, a fachada do local atua como isolante térmico da mesma forma como ocorre no (MPC) e no (IBC).

“Os Jogos Olímpicos Rio 2016 demonstram como a ciência e a tecnologia podem gerar benefícios para o mundo dos esportes. O aprendizado que tivemos com a experiência em outras Olimpíadas, combinado com a grande evolução que fizemos em outras plataformas globais de esporte, possibilitaram a criação de soluções sob medida para as necessidades mais desafiadoras dos grandes eventos esportivos”, afirma, por meio de comunicado, Louis Vega, vice-presidente global para Soluções em Esportes e Olimpíadas da Dow, empresa responsável pela tecnologia utilizada no MPC e no IBC.

Soluções semelhantes também foram utilizadas na Arena da Juventude, localizada no Complexo Esportivo de Deodoro.Apesar de ser uma estrutura permanente, o local será redimensionado para utilização pós Jogos além de contar com sistemas que otimizam a utilização dos recursos naturais. No Parque de Deodoro também está sendo testado um sistema piloto de geração de energia solar para grandes eventos. Por ser uma região quente e com pouca oferta de sombra, foram instalados ombrelones com placas fotovoltaicas. A energia gerada é usada para a recarga de celulares e equipamentos elétricos portáveis.

“A Rio 2016 deixa a mensagem de que é possível e viável organizar um mega evento esportivo respeitando o meio ambiente. Mostramos que a partir da mudança de hábito, planejamento e reengenharia de que os espaços podem ser otimizados e usados com mais eficiência o que gera inúmeros ganhos para todos os envolvidos. A mensagem sustentável é sem dúvidas, um dos principais legados que os Jogos deixarão para o país”, conclui Tânia Braga.


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